Trabalho vai definir protocolo para favorecer convivência entre abelhas e soja

Experimentos realizados com abelhas no interior de uma parcela de soja engaiolada confirma crescimento de rendimento de soja

  • Cooperação técnica-financiadora récem-assinada entre a Embrapa e a Basf vai validar boas práticas agrícolas e apícolas a partir da safra 2022/2023.
  • O objetivo é incentivar a convivência harmômica entre sojicultores e agricultores, em prol de sistemas de produção mais sustentáveis.
  • O projeto prevê a realização de ações conjuntas em três estados importantes na sojicultura brasileira: PR, MS e RS, até 2025.
  • Protocolo de Boas Práticas Agrícolas e Apícolas, cuja função é orientar as ações dos grupos de trabalhos de sojicultores e apicultores, visa comprovar que a diversificação de atividades pode ser benéfica aos dois setores.
  • Um dos resultados será a elaboração de uma cartilha contendo práticas sustentáveis para a produção de soja com baixo impacto na criação de abalhas.
  • Se, por um lado, a florada de soja pode ser usada como pasto apícola, por outro, a polinização incrementa a produção de soja em cerca de 13%.

A Embrapa e a Basf assinaram acordo de cooperação técnica e financeira para validar um modelo tecnológico, a partir da safra 2022/2023, pautado em boas práticas agrícolas e apícolas. O intuito do projeto, que tem duração de três anos (2022-2025), é impulsionar a convivência harmônica entre sojicultores, a partir de ações conjuntas em três regiões brasileiras importantes para a produção de soja no Brasil: Paraná (Maringá), Mato Grosso do Sul (Dourados) e Rio Grande do Sul (São Gabriel). A partir da validação de um protocolo de boas práticas agrícolas, as instituições pretendem comprovar que o desenvolvimento das atividades em espaços integrados pode ser benéfico para os dois setores.

“Para a Embrapa, é fundamental propor ações em parceria, que promovam a boa convivência e estimulem a respeito às diferentes atividades de campo, com foco na sustentabilidade dos sistemas produtivos. No caso específico do relacionamento entre sojicultor e apicultor, é importante a valorização da responsabilidade mútua, o que significa respeitar os limites além de suas áreas de cultivo ou propriedades”, destaca Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja (PR).

De acordo com Maurício de Carmo Fernandes, gerente de Stewardship e Sustentabilidade, da Divisão de Solução para Agricultura da Basf, a empresa estabeleceu como meta aumentar em 7% ao ano a parcela de soluções que contribuem significativamente com a sustentabilidade, além de continuar fortalecendo as ações que promovem o uso correto e seguro das soluções com boas práticas agrícolas.

“Acreditamos que investir nessa iniciativa vai contribuir para o legado da agricultura. Todos podem sair ganhando nessa relação da produção de soja e de mel. A Basf apoia e promove esse trabalho conjunto, e é por isso que nos unimos à Embrapa nesse desafio e o meio ambiente”, afirma Fernandes.

Para o acompanhamento das atividades dessa iniciativa, o pesquisador Décio Gazzoni, da Embrapa Soja, explica que será criado um protocolo de Boas Práticas Agrícola e Apícolas, cuja função é orientar as ações dos grupos de trabalho de sojicultores e apicultores participantes. “Nossa ideia é verificar a adequação desse protocolo, efetuar os ajustes necessários, validando sua factibilidade nas microrregiões geográficas estabelecidas, durante as safras de soja 2022/2-23 e 2023/2024”, ressalta.

Depois de validados, os resultados irão compor uma cartilha contendo um conjunto de práticas sustentáveis para a produção de soja com baixo impacto na criação de abelhas. A cartilha também conterá boas práticas apícolas para instalação de apiários próximos às lavouras de soja. Outras estratégias de transferência de tecnologia e comunicação serão adotadas, ao longo do projeto, como a produção de conteúdo em vídeo e materiais impressos.

“As ações visam ao compatilhamento de um conjunto de boas práticas para a cultura de soja, especialmente no tocante ao uso de medidas fitossanitárias e de boas práticas apícolas, gerando recomendações básicas aplicadas à realidade do campo”, esclarece Gazzoni.

Projeto prevê capacitação de sojicultores e apicultores em técnicas sustentáveis

O projeto foi organizado para contar com a participação de grupos de apicultores proprietários de até cinco apiários e de sojicultores que estejam localizados próximos a essas colmeias. “Com base em mapas obtidos do google Earth, vamos detalhar a paisagem da área a ser trabalhada, com raio máximo de três quilômetros dos apiários. os apiários serão referenciados geograficamente utilizando a Plataforma de Informação sobre Apicultura e Meio Ambiente (GeoApis)”, acrescenta Gazzoni.

O Pesquisador pontua que a metodologia prevê o detalhamento do entorno dos apiários para identificar os componentes da paisagem – reversa legal, área de proteção permanente (APP), lavouras perenes, lavouras anuais, pastagens entre outros – cujo objetivo é delimitar os pontos de intersecção e sobreposição de áreas de exploração agrícola e áreas de forrageamento das abelhas dos apiários. Segundo ele, o sistema de produção e as práticas de manejo de cada agricultor serão descritos, e será verificada a observância de todos os requisitos das boas práticas.

No cronograma do projeto, estão previstas reuniões de acompanhamento das ações, assim como de capacitação dos sojicultores e dos apicultores para a condução das técnicas, procedimentos e atitudes sustentáveis. “Os sojicultores serão treinados em práticas fitossanitárias adequadas, envolvendo manejo das pragas de cultura (Insetos, doenças, nematoides e plantas invasoras). Por outro lado, os apicultores serão capacitados em boas práticas apícolas”. conta Gazzoni.

Dentro do planejamento, o pesquisador prevê que a aplicação de pesticidas por via aérea seja monitorada, a partir de plano de voo dos aviões agrícolas, a ser elaborado por uma empresa especializada. “Pretendemos que as aplicações prevejam a proteção necessária para evitar qualquer deriva para as áreas que se deseja proteger”, afirma. depois de validado, o protocolo será convertido em cartilha, que principais regiões do Brasil onde existia proximidade de apicultura com lavouras de soja.

Soja e abelhas: união vantajosa para a agricultura sustentável

A soja está presente em praticamente todas as regiões brasileiras e ocupa, aproximadamente, 40 milhões de hectares, na safra 2021/2022. Dessa forma, em alguns casos, as áreas cultivadas com soja estão próximas de apiários fixos tradicionais, ou mesmo dos locais de colocação de colmeias em apiários migratórios.

Apesar do desafio da convivência harmônica, há vantagens para ambas as atividades. Segundo Gazzoni, de um lado, a florada da soja pode ser usada como pasto apícola, pelos criadores de abelhas, especialmente de Apis mellifera (a abelha africana), em períodos de pouca disponibilidade de alimento. “Além disso, podemos afirmar que, sob condições adequadas de visitação, a produtividade de soja pode ser incrementada em cerca de 13% pelo processo de polinização propiciada pela visitação das abelhas na soja”, diz Gazzoni.

Para investigar o efeito da polinização por abelhas na produtividade de soja, três experimentos foram instalados no campo experimental da Embrapa Soja, em Londrina (PR), nas safras de soja de 2017/2018 a 2019/2020. Na metodologia foram utilizados três tratamentos: o primeiro possibilitava o livre acesso de abelhas na cultura da soja, o segundo consistiu na introdução de uma colmeia de Apis mellifera no interior de uma parcela de soja engaiolada e o terceiro tratamento mantinha uma parcela de soja engaiolada sem o acesso de abelhas ou qualquer outro polinizador.

De acordo com gazzoni, a visitação de abelhas na floração de soja, foi monitorada, durante todo o período de florescimento, com pastagens de abelhas às 9h horas, às 10 horas e às 11 horas. “Pudemos observar que o maior número de abelhas foi observado às 11 horas, o que é um indicativo importante para se planejar as pulverizações de agroquímicos na soja”, explica.

“Nos três anos de estudo, o incremento médio da produtividade da soja, nas parcelas engaioladas com uma colônia de abelhas, foi de 639 quilos por hectare (Kg/ha), isto é, 12,97%, sendo de 274 Kg/ha (5,58%) nas parcelas abertas, sem gaiolas, quando comparadas com as parcelas engailadas, que não permitam o acesso de polinizadores”, relata.

Manejo dos apiários

Um dos primeiros passos indicados aos apicultores para garantir a produção em quantidade e qualidade adequadas de mel é a manutenção de abelhas saudáveis e colônias com grande quantidade de indivíduos, afirma Gazzoni. Nesse sentido, o pesquisador considera recomendável, ainda, a substituição periódica da rainha, o manejo e a suplementação alimentar, se necessário. “Recomenda-se que o apicultor faça revisões quinzenais em suas colônias, para acompanhar o desenvolvimento delas a realizar os manejos necessários”, diz.

Outra orientação é manter distância mínima de 500 metros de áreas com trânsito de pessoas e animais, a fim de evitar acidentes. “Os apiários também devem estar a uma distância de 50 metros de áreas de lavoura, para evitar perda de colônia devido à deriva de produtos fitossanitários”, observa. “De preferência, deve-se utilizar barreiras naturais ao redor do apiário, tais como capim Napier, arbustos altos como astrapeias, cerca vivas, entre outras”, complementa.

Quanto ao posicionamento das colônias, gazzoni explica que, para a produção de mel, recomenda-se o uso de três colônias por hectare estimado de pasto apícola, uma vez que as abelhas forrageiras buscam alimento em um raio de. no máximo, 2,5 Km de distância. “Se houver competição entre as abelhas para produção de mel, a produtividade poderá ser prejudicada. da mesma forma, deve-se evitar a sobreposição de apiários. A distância de um apiário para outro é de 5 Km.”

Boas práticas para soja

No caso do sojicultor, Gazzoni enfatiza a necessidade de respeitar e adotar as recomendações agronômicas para o cultivo da soja, em todas as fases da cultura. O pesquisador reforça a importância da correta aplicação de pesticidas, observando todos os cuidados necessários para conservação das colônias de abelhas criadas e, também, de espécies nativas. “O agricultor deve respeitar, integralmente, as recomendações do Manejo Integrado de Pragas da Soja e conferir atenção especial para melhores práticas de tecnologia de aplicação”, orienta.

Fonte: Embrapa

Nome interessante: abelhas forrageiras

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