O crescimento no número de empresas emergentes de base tecnológica no setor agropecuário desacelera e a concentração geográfica começa a diminuir com o avanço em regiões importantes da produção. Essas são algumas das conclusões da sexta edição do Radar Agtech Brasil. O Levantamento feito pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens referente ao ano de 2025 retrata o ecossitema de inovação no agro, com foco em ambientes de inovação, startups e investidores.
Os dados mostram que o Sul ultrapassou o Sudeste, tornando-se a região com maior número de ambientes de inovação. Dos 390 ambientes mapeados no País, 37,18% estão no Paraná, Santa Catarina e Rio Gande do Sul, e 32,82% em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
O destaque é o Rio Grande do Sul, com um aumento expressivo no número de incubadoras. De acordo com o coordenador do Radar Agtech e analista da Embrapa Aurélio Favarin, os dados mostram uma clara atuação do governo estadual em incentivo à inovação. "Incubadoras trabalham na fase inicial do processo de inovação. Faz sentido que um estado, pensando no desenvolvimento de um ecossitema, comece pelas incubadoras. A maior parte está vinculada às universidades estaduais. Há um planejamento para isso, para criar condições para que as startups iniciem", analisa Favarin.
A Região Sudeste possui maior número de hubs, aceleradoras e ecossistemas co governança, o que mostra uma fase mais avançada de maturidade em relação à Região Sul. Enquanto uma está focada na aceleração e no desenvolvimento de negócios, a outra enfoca as etapas iniciais da formação das startups.
Desaceleração e maturidade
Em relação ao número, o levantamento contabilizou 2.075 agtechs em 2025 no Brasil, 5% a mais do que no ano anterior. O número indica uma desaceleração no crescimento quando comparada com série histórica iniciada em 2019. De acordo com os autores do levantamento, o crescimento moderado indica maior maturidade do ecossistema e consolidação de modelos de negócio.
"Entre 2019 e 2021 houve um boom de ambientes de inovação e fundos de investimentos, o que contribuiu para um grande aumento na quantidade de agtechs. Com o tempo essas iniciativas vão se acomodando, com permanência daquelas mais bem estruturadas. O ecossistemas continua relevante, mais com um crescimento menos expressivo. É um comportmento esperado e que mostra a maturidade do ecossistema de inovação", analisa o pesquisador d Embrapa Vitor Mondo.
As regiões Sudeste e Sul concentram 79% das agtechs, com 55,2% e 23,7%, respectivamente. Porén, os dados mostram que, apesar da concentração histórica, há crescimento proporcional das agtech nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, em uma gradual expansão geográfica do ecossistema, aproximando-se de áreas importantes para a produção agropecuária. Em 2019, as Regiões Norte e Nordeste juntas tinham apenas 5% das agtechs. Atualmente a Região Norte tem 7,6% e a Nordeste 6,5%. A Região-Oeste tem 7.1%.
De acordo com os dados, em 2025 o estado do Amazonas conta com 17 agtechs, Goiás com 15 e Mato Grosso com 14. Minas Gerais e Rondônia, que respectivamente dispõem de 13. foram os estados que mais ganharam agtechs. Registraram redução no número de agtechs Rio Grande do Sul (menos 27), Tocantis e Distrito Federal (menos 7) e São Paulo (menos 6).
Essa tendência ocorre ao mesmo tempo em que cresce a proporção das agtechs atuando dentro das fazendas. Isso é um sinal positivo, de que as empresas estão em um nível de maturidade no qual já conseguem acessar diretamente o produtor rural", avalia Mondo.
Áreas de atuação
As agtechs brasileiras estão predominantemente nos segmentos dentro da fazenda (41,1%) e depois da faenda (40,5%). A categoria "Alimentos inonvadores e novas tendências alimentares" lidera o ranking das áreas de atuação, com 15 % das agtechs. "Sistemas de gestão da propriedade rural" vem em segundo ligar com 8%, e "Plataformas integradoras de sistemas, soluções e dados" aparece em terceiro com 7,5% das startups analisadas.
A inteligência artificial é amplamente disseminada entre as agtechs - 83% das empresas utilizam IA em seus processos ou produtos, e 35% delas têm a IA como núcleo da proposta de valor. "Esse dado sinaliza que a tecnologia digital deixou de ser diferencial pontual e passou a construir camada estrutural do modelo de negócio", afirma Aurélio Favarin.
Inovação aberta
Além de trazer os dados do levantamento sobre os ambientes de inovação, agtechs e investidores, o Radar Agtech Brasil elenca casos de inovação aberta no setor agropecuário com atuação da Embrapa e uma experiência no Espírito Santo como exemplo de ação no poder público no incentivo local à inovação.
Neste ano, pela primeira vez, versão em inglês será lançada junto à edição em português. Outras novidade é a disponibilização do conteúdo também em espanhol.
Todo o material pode ser acessado gratuitamente em https://radaragtech.com.br/
Evolução do ecossistema de inovação
O Radar Agtech Brasil começou a ser produzido em 2019. De lá para cá, a publicação evoluiu metodologicamente e se consolidou como referência para entender o ecossistema de inovação no setor agropecuário.
"O Radar Agtech Brasil funciona como um mapa vivo da inovação no campo brasileiro. Ele revela talentos, conecta ideias e orienta investimentos, transfomando dados em oportunidades concretas para o agro. Ao integrar startups, ciência e mercado, a Embrapa amplia seu papel como ponte entre o conhecimento e a transformação, impulsionando um ecossistema cada vez mais dinâmico, digital e sustentável para o País", ressalta Silvia Massruhá, presidente da Embrapa e uma das responsáveis pelo início do Radar Agtech, quando ocupava a chefia-geral da Embrapa Agricultura Digital (SP).
Inicialmente focada em dados quantitativos, hoje a publicação traz dados qualitativos sobre startups, ambientes de inovação e investidores e analisa essas informações. A periodicidade do levantamento também ajuda a entender a evolução do ecossistema.
"O próximo ciclo do ecossistema dependerá menos da expansão numérica e mais da qualidade das conexões entre tecnologia, capital, governança e produção. Nesse processo, o Radar agtech atua não apenas como base de dados, mas como plataforma de produção contínua de inteligência estratégica e de articulação institucional", afirma Luiz Sakuda, co-fundador e sócio da Homo Ludens Inovação e Conhecimento.
As transformações retratadas a cada edição do Radar Agtech Brasil permite entender, por exemplo, a mudança no perfil dos investimentos no setor.
"Acreditamos que o mercado está, de fato, vivendo um novo momento. Nos últimos dois ou três anos, o ambiente para captação de recursos ficou mais desafiador, o que exigiu muita resiliência dos empreendedores. Como consequência, vemos hoje startups sendo construídas com uma mentalidade mais focada em eficiência e rentabilidade desde os estágios iniciais. Esse movimento reflete uma maturidade maior do ecossistema e uma adaptação natural a um cenário de capital mais seletivo", afirma Pedro Jábali, da SP Ventures.
A consolidação do levantamento rendeu uma parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a agricultura (IICA) para a elaboração do Radad Agtech América Latina e Caribe. O levantamento está sendo executado e será lançado em junho.
Fonte: Embrapa
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