Livro Mercados Alimentares Digitais em PDF

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Observação: logo abaixo, contém a introdução do livro.

Autores

Paulo Niederle
Sergio Schneider
Abel Cassol

As discussões sociológicas em torno das tecnologias e dos processos de
transformação digital da vida social e econômica não são recentes, apesar
de ser uma problemática que está em seus prolegômenos na pesquisa. Vale
lembrar que já na virada do século, Manuel Castells, de forma pioneira e precursora, sugeria que a “revolução tecnológica informacional” estaria criando
uma nova estrutura social baseada na informação e no conhecimento. De
acordo com o sociólogo espanhol, a principal novidade que despontava junto com a globalização eram as tecnologias de informação e comunicação
(TICs) que permitiriam novas estruturações dos fluxos sociais e econômicos
através da sua organização em rede (Castells, 1999).
Hoje está claro que a mediação digital da vida social se expandiu e se
consolidou em todas as suas dimensões. É praticamente impossível trabalhar, produzir e consumir prescindindo das tecnologias digitais. A digitalização avança rapidamente nos processos produtivos, permitindo não apenas
a substituição da força de trabalho humana por robôs, mas também da cog-
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nição humana por sofisticados sistemas algorítmicos. A disseminação dos
aparelhos celulares e o uso corriqueiro da internet permitiram com que a
digitalização se tornasse um fato social que organiza múltiplas interações
econômicas e culturais. Em junho de 2020, havia no Brasil 234 milhões de
smartphones e um total de 342 milhões de dispositivos portáteis (incluindo
notebooks e tablets), o que significava 1,6 dispositivo portátil por habitante
(Meirelles, 2021).
A agricultura e os sistemas alimentares não fogem a esta realidade, embora os problemas de acesso e manejo das tecnologias digitais sejam mais
evidentes nas áreas rurais (Rolandi et al., 2021; Carolan, 2020; Bronson,
2020). O alcance dessas mudanças e a compreensão dos seus potenciais efeitos estão mobilizando organizações e pesquisadores em todo o mundo. Até o
momento, enquanto para alguns a digitalização representa o começo de uma
nova era, repleta de possibilidades e promessas, para outros ela apresenta
novos riscos e ameaças (Barrantes; Agüero; Aguilar, 2020; Gazolla; Aquino,
2021; Trendov; Varas; Zeng, 2019). Isso faz com que novos estudos se tornem necessários para avaliar os eventuais ou potenciais ganhos e perdas da
revolução digital na agricultura e no sistema alimentar. Dentre as inúmeras
dúvidas que pairam sobre o tema destacam-se, por exemplo, os impactos
da digitalização com relação à exclusão/inclusão de diferentes grupos sociais
– gênero e geração sendo duas variáveis centrais quando se fala de acesso e
manejo das tecnologias digitais.
A questão orientadora desse livro é o efeito da digitalização na dinâmica dos mercados alimentares. Em particular, busca-se compreender qual
é o potencial das tecnologias digitais para promover inclusão produtiva pela
via de novas plataformas coletivas de comercialização. Estudos recentes têm
advertido para o fato de que a digitalização dos mercados da agricultura
familiar já se encontrava em curso nos últimos anos (Conceição; Schneider,
2019; Buainain; Cavalcante; Consoline, 2021). No entanto, a singularidade
do momento atual está na aceleração desse processo como decorrência da
pandemia da Covid-19 e das consequentes restrições de circulação para conter seu avanço, o que levou agricultores, empresas e cooperativas a apressar o
desenvolvimento de tais tecnologias como forma de garantir o escoamento
de seus produtos (Schneider et al., 2020; Belik, 2020).
A análise dos mercados alimentares digitais têm destacado, de um lado,
as potencialidades abertas pela digitalização dos mercados e pela mediação
das tecnologias informacionais na produção, comercialização e no consumo de alimentos da agricultura familiar. Dentre essas potencialidades destacam-se o acesso a informações e, consequentemente, a maior capacidade
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dos agricultores para planejarem suas ações; a maior segurança nas transações estabelecidas entre atores desconhecidos; o incremento da eficiência
logística na distribuição de alimentos, insumos e matérias primas; as novas
oportunidades de trabalho e renda para os agricultores; e o melhor uso e
aproveitamento dos recursos naturais (Baumüller, 2015; FAO, 2020; Aker;
Fafchamps, 2010; Torero, 2013; Banco Mundial, 2016; OECD, 2019;
Conceição; Schneider, 2019).
De outro lado, vários autores sublinham os riscos do processo de digitalização, especialmente para os agricultores mais vulneráveis e populações tradicionais. Nesse sentido, destacam que a digitalização dos mercados
agrícolas reforça as atuais dinâmicas excludentes dos sistemas alimentares
(Clapp; Ruder, 2020; Cowie et al., 2020; Miles, 2019). O próprio Diretor
Geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação
(FAO), declarou, em dezembro de 2020, que “em nenhum outro lugar a
cisão digital é mais evidente do que na agricultura”. Segundo QU Dongyu,
fazendas comerciais em países desenvolvidos e economias emergentes já utilizam as tecnologias digitais de maneira intensiva, enquanto pequenos agricultores, sobretudo nos países em desenvolvimento, seguem alijados de tal
possibilidade (FAO, 2020).
Este livro apresenta dois tipos de contribuições para o debate sobre
os processos de digitalização dos mercados alimentares. Na primeira parte,
seis capítulos sumarizam os principais resultados de um projeto interinstitucional de pesquisa sobre estratégias cooperativas de inclusão produtiva
da agricultura familiar por meio de plataformas digitais de comercialização.
Sob os auspícios da Cátedra Itinerante sobre Inclusão Produtiva Rural do
Cebrap Sustentabilidade, o projeto “Inclusão produtiva em um contexto de
múltiplas transições: tecnologias digitais, acesso a mercados e promoção de
sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis” foi coordenado pelo Grupo
de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento
(Gepad) e contou com a colaboração de pesquisadores de várias universidades: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Instituto
Federal Farroupilha (IFFar); Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS);
Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS); Universidade de
Santa Cruz do Sul (Unisc); Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e
Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
A questão central que orientou a pesquisa foi elaborada nos seguintes
termos: como as tecnologias digitais podem viabilizar a inclusão de diferentes atores sociais como fornecedores e consumidores de alimentos saudáveis
e sustentáveis? O foco das preocupações residia no potencial (e nos limites)
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dessas tecnologias para o efetivo engajamento de determinados segmentos
sociais que, historicamente, foram relegados tanto pelas políticas públicas
como pelas estratégias empresariais de desenvolvimento rural. Dentre estes
segmentos estão comunidades tradicionais e indígenas; grupos de agricultores ecologistas; jovens e mulheres rurais; e consumidores das classes mais
baixas de renda e/ou das periferias urbanas. Os parceiros estratégicos para a
realização das pesquisas foram Agência de Desenvolvimento do Médio Alto
Uruguai (Admau), a Cooperativa de Agricultores Familiares de Itati, Terra
de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt) e a Cooperativa GiraSol de Comércio
Justo e Consumo Consciente
O capítulo que abre o livro, de autoria de Paulo Niederle, Sergio
Schneider, Jeferson Tonin, Saritha Denardi, Juliane Salapata, Marcio
Gazolla, Potira Preiss, Marcelo Conterato, Maycon Schubert e Catia Grisa,
inicia com uma breve revisão sobre a literatura recente acerca dos processos de transformação digital na agricultura e no meio rural. Em seguida,
apresenta os principais resultados da pesquisa com as plataformas digitais
de comercialização criadas por Admau, Coomafitt e GiraSol e, finalmente,
sintetiza as lições aprendidas e caminhos possíveis para construção de novas
estratégias e novos processos de inclusão produtiva e digital.
Os capítulos subsequentes analisam de maneira individualizada os casos das três plataformas pesquisadas. No segundo capítulo, Potira Preiss,
Juliane Salapata, André Mombach e Tanara Lucas discutem o caso da
Cooperativa de Consumidores GiraSol na construção de uma plataforma
de e-commerce para consumidores da cidade de Porto Alegre. Os autores
discutem principalmente como essa iniciativa é percebida pelos consumidores e quais as suas repercussões em termos de consumo justo, sustentável
e solidário. No terceiro capítulo Saritha Vattahara, Zenicléia Deggerone,
Jeferson Tonin, Eliseu Liberalesso e Joel da Silva exploram as articulações
que deram origem à plataforma Alimento de Origem. Os autores apresentam as principais dificuldades de consolidação dessa iniciativa, que tem sido
pouco acessada pelos consumidores locais para compras on line. Ao mesmo
tempo, demonstram como sua viabilidade articula-se à prestação, por meio
digital, de outros serviços associados à plataforma, tais como rastreabilidade
e inspeção sanitária. Já o quarto capítulo discute o processo de “reinvenção” da Coomafitt a partir da sua entrada no digital, bem como os efeitos
da iniciativa em termos de inclusão produtiva local. Assinado por Juliane
Salapata, Bruno Engel Justin, Alan Souza, Catia Grisa e Jairo Bolter, o capítulo ainda analisa as principais demandas dessa experiência em termos de
suporte para políticas públicas.
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Por fim, os dois últimos capítulos que fecham a primeira parte do livro
aprofundam aspectos específicos das análises anteriores. O capítulo de Jeferson
Tonin, Paulo Niederle e Evandro Schneider focaliza uma discussão conceitual
em torno do papel das habilidades sociais dos atores territoriais para produzir
o arranjo social necessário à construção e operação desse tipo de plataforma.
De forma perspicaz, os autores demonstram como os casos da Coomafitt e da
Admau consolidaram-se a partir da ação coordenada de alguns “atores hábeis”
que foram responsáveis pela articulação estratégica dos distintos e heterogêneos
interesses dos atores desses territórios. Finalmente, o artigo de Eliezer Pedroso e
Joel da Silva aprofunda uma discussão em relação aos principais desafios técnicos para o uso democrático das tecnologias na construção de mercados digitais.
A segunda contribuição do livro refere-se à compilação de um conjunto
de estudos nacionais e internacionais que aprofundam e ampliam o leque de
temas discutidos na primeira parte a partir de um olhar para outras realidades sociais. Os seis artigos que compõe a segunda parte do livro discutem as
potencialidades e limites da digitalização da agricultura, dos mercados e das
próprias políticas públicas.
Na medida em que o Projeto de Inclusão Produtiva avançava, percebemos a atuação de diversos grupos de pesquisas internacionais voltados às
análises dos processos de digitalização da agricultura e do rural. Essa observação nos levou a extrapolar a dimensão nacional do Projeto e incorporar
um olhar internacional sobre o tema. Neste sentido, o primeiro artigo da
segunda parte, de autoria de Kelly Rijswijk, Laurens Klerkx, Manlio Bacco,
Fábio Bartolini, Ellen Bulten, Lies Debruyne, Joost Dessein, Ivano Scotti e
Gianluca Brunori, vinculados ao projeto Development of Smart Innovation
through Research in Agriculture (DeSIRA), discute os processos de digitization
e digitalisation da agricultura e das áreas rurais no contexto europeu. A partir
da análise do caso da pecuária leiteira, os autores demonstram os diferentes
níveis de digitalização dessa cadeia produtiva e discutem suas potencialidades
para uma maior responsabilização dos atores envolvidos.
O capítulo de Melf-Hinrich Ehlers, Robert Huber e Robert Finger realiza um interessante debate sobre como a digitalização pode alterar a dinâmica das políticas agrícolas europeias. A principal contribuição dos autores
encontra-se na construção de um modelo analítico focado nas principais dimensões da política agrícola, a partir do que eles discutem como ferramentas
digitais podem contribuir no desenho e implementação de políticas focadas
nos resultados, via monitoramento sistemático das unidades de produção e
territórios rurais. Ao mesmo tempo, discutem os riscos e dificuldades que
essa nova lógica pode trazer para os agricultores.
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Por fim, os três últimos capítulos analisam os processos de digitalização no contexto brasileiro, porém em regiões distintas daquelas pesquisadas
através do Projeto de Inclusão Produtiva. Primeiramente, Marcio Gazolla e
Joacir Aquino apresentam como o contexto da pandemia da Covid-19 levou
a uma “reinvenção” dos mercados da agricultura familiar em direção a sua
digitalização. A partir de um levantamento sobre as principais plataformas
digitais de comercialização de alimentos desse segmento no país, os autores
demonstram como tais mercados têm aberto oportunidades para a oferta de
alimentos orgânicos e ecológicos, estimulando uma nova agenda de pesquisas sobre o tema dos mercados. Em seguida, Cidonea Deponti, Vinicios de
Oliveira e Rosane Kist apresentam o caso da inclusão digital dos agricultores
familiares do Vale do Caí, no Rio Grande do Sul, discutindo como esse processo contribui para o desenvolvimento regional. Finalmente, Jhose Iale da
Cunha e Sergio Schneider discutem o processo de digitalização da comercialização dos produtos da Rede Xique Xique no nordeste brasileiro. Segundo
os autores, ao permitir maior aproximação entre produtores e consumidores,
esse processo não apenas tem potencial para a inclusão produtiva, mas para
promover mudanças nos sistemas alimentares que reforçam lógicas sustentáveis, solidárias, feministas e agroecológicas.
Ao fim e ao cabo, esse conjunto de capítulos demonstra que a viabilidade das plataformas digitais de comercialização construídas pelas organizações
da agricultura familiar está largamente estribada no modo como essas ferramentas estão conectadas a um arranjo mais amplo de mercados para produtos
e serviços. O fluxo monetário das compras virtuais, assim como volume e outros indicadores discretos são importantes, mas secundários. Nossas pesquisas
revelaram um componente de aprendizagem neste processo que faz com que
eventuais prejuízos nas vendas virtuais possam ser revertidos pela expansão de
outras iniciativas, como ampliação dos dispositivos digitais utilizados. Além
disso, indica que o crescimento das vendas por WhatsApp aparenta ser expressivo, mas pouco se sabe sobre o real tamanho desse mercado. Destaca
ainda que é preciso conhecer mais e melhor sobre como as interações entre
fornecedores e consumidores se constituem no mundo digital, assim como
as formas de sinergia com os mercados físicos (as feiras livres, por exemplo).
Outra mensagem do livro é que as políticas públicas de desenvolvimento rural e inclusão produtiva ainda estão operando com a imagem de um
mundo analógico. É urgente produzir evidências que possam orientar o desenho de uma nova geração de programas públicos e, sobretudo, demonstrar
como as ferramentas digitais podem contribuir no desenho de novas rotas
de inclusão produtiva. Caso contrário, considerando que a digitalização tem
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se mostrado um caminho sem volta, há um risco de a própria ação pública
ampliar a cisão digital e acentuar a exclusão. Considerando que a capacitação
para o uso das ferramentas digitais é um dos aspectos mais críticos para superar a cisão digital, sugere-se que um dos focos prioritários da ação pública
seja a extensão rural. Isso implica, por exemplo, na capacitação dos próprios
extensionistas para este tipo de ação.
Finalmente, é importante dizer que, embora seja frequente haver certo
fascínio pelas múltiplas possibilidades do mundo digital, quando se trata da
inclusão produtiva dos atores mais vulneráveis, deve-se notar que o fluxo de
informações precisa ser o mais intuitivo possível, o que, não raro, implica na
disponibilização de ferramentas acessíveis. Ademais, mesmo com a garantia
do acesso às ferramentas digitais e com seu adequado manejo, é importante
considerar os complementos analógicos necessários à operação das plataformas e, neste sentido, o fortalecimento das infraestruturas logísticas das cooperativas é um aspecto crítico. Neste sentido, a criação de diferentes modelos
de cooperação e intercooperação entre agricultores e consumidores demonstra-se fundamental para viabilizar as plataformas, sobretudo para garantir
escala, escopo, regularidade e redução de custos. Além disso, incentivar a gestão participativa e, principalmente, o protagonismo dos jovens e mulheres,
revela-se não apenas um dever moral, mas uma medida fundamental para
impulsionar a inclusão produtiva por meios digitais. Isso se deve à capacidade de comunicação destes atores e ao desenvolvimento de uma linguagem
mais aberta ao entendimento das múltiplas necessidades, privações, preconceitos e estigmas que determinam a exclusão

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